10 dezembro, 2012
331
Não gosto de olhar para trás e sentir saudades das pessoas de quem gostei, que seriam possíveis de se amar. Nunca pensei que aquelas poucas pessoas, só por partilharem comigo parte da genética, me fizessem falta. A falta que durante vinte tempos nunca conseguiram dar cabo. Agora que tudo, mais ou menos, parece se encaixar sem que precise de muito pensar. Fazem-me comichão. Uma comichão que não se coça, em que se vê a pele desfiar e o sangue a resmungar. Resmunga que ninguém o controla. Segreda que, no meio das gentes, ninguém terá a mesma consistência. Coisas que ficaram por dizer, outras por rebentar e outras ainda por descobrir, quiça, repartir. E sinto-me como se tivesse quarenta, um quarenta morto vivo. O peso de uma herança vazia, na balança que não sabe pesar, pesa tão levemente que nunca irá acertar. E um dia, o vazio irá degradar-se até que reste o nada. É do nada que tenho medo. E ele parece não ter medo de mim.
04 dezembro, 2012
330
There's an
elephant in the room
"(...) If we talk about the fact that I might die
Perhaps we can talk about how I am living
Can we talk about the elephant without you looking
away?
For if we cannot,
then you are leaving me Alone
... in a room
... with an elephant."
03 dezembro, 2012
13 novembro, 2012
326
É só deixar que colapse e que se reparta em estilhaços. Aquilo que nos prende, apenas devemos deixar ir. Um dia mais tarde, acabará por fazer sentido. E enquanto não o faz, deixamos tudo a flutuar, como se nunca tivesse colapsado. Memórias a meio gás, são como livros deixados a meio. No meio, está a virtude. Parece que é isso que dizem.
02 novembro, 2012
325
A minha avó está presente nos livros velhos, que são mais velhos do que eu. Este está já preso a fita-cola, em que as folhas já não são brancas, mas amarelas do uso. O cheiro dela, tão característico dela, que só ela o sabia provocar e que só nela o consegui cheirar, está empregnado neste livro. Como se ele tivesse sido dela, mas ela nunca foi de ler livros de psicoterapia ou coisa que o valha. Os livros dela eram outros. Mas tudo neste livro cheira à minha avó. É como se ela vivesse dentro deste livro. E gosto de me lembrar dela, assim de vez quando. Gosto que ela me deixe sinais por toda a parte e que, de vez em quando, o quanto baste, me faça lembrar dela. E eu vou sorrindo silenciosamente, só para a minha avó ver. E quando eu for já velha, como o livro é e como ela era, espero ter um livro assim, que cheire a ela e, depois, que cheire a mim. Um cheiro que nos perpetue para toda, ou quase toda, a eternidade.
23 outubro, 2012
322
Passado tanto tempo, parece que quase tudo ficou na mesma. Mas, depois daquela noite, em que morri um pouco por dentro e em que uma nova parte de mim nasceu novamente, tudo ficou mais claro. O tempo passou e as noites voltaram a ser frias. O tempo passa, mas o dia não deixa de passar por aqui. É que, por momentos, ainda sonho os sonhos antigos, mas os novos estão a formar-se. E amanhã, quem sabe não irá ficar tudo um pouco mais livre. Eu... mais livre de ti.
08 outubro, 2012
04 outubro, 2012
320
Foi a urgência que veio cedo de mais, a ânsia de tomares conta de nós de uma forma mais acertada. Quando em vida nada se percebe, nada se perdoa, a morte vem-nos dizer que há várias maneiras de gostar e que nem sempre sabemos como o fazer. Mas a morte não acontece para nós que guardamos as pessoas como guardamos fotografias. E como acreditamos que somos um ciclo, boa sorte para a nova fase. Até depois, estrangeiro.
03 outubro, 2012
319
Nós a crescer e eles a morrer. E tu vais crescer tanto que não te vais lembrar disto. Mas, um dia, contar-te-ei a história dele, onde nós temos, pelo menos, papéis secundários. Vais conhecer o que ele era para nós e o que nós eramos para ele. Porque, embora sejas ainda um pequeno humano, tens o direito de saber a verdade quando fores grande o suficiente. Acho, nas profundezas das minhas incertezas, que ele gostava de nós e que, bem lá no fundo, ele apenas não sabia a forma acertada de gostar. E é por isso que nunca sentimos o amor dele. Mas dela sim, ela vivia para me dar beijinhos e vivia para te conhecer. Chegaste tarde demais ou foi ela que foi cedo demais? Nunca havemos de saber. Ou saberemos? Se algum dia descobrires, conta-me, é que quero mesmo tirar esta ideia de que andámos todos a fazer tudo ao contrário.
01 outubro, 2012
19 setembro, 2012
316
"Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado."
11 setembro, 2012
315
Chega a ser a expressão de um gene ou até mesmo uma doença, como se a amargura fosse infinita e como se não houvesse antídoto para o veneno que deliberadamente tomamos. Não voltamos a fazer parte da esfera que nos dá sonhos, outras vezes pesadelos, e partimos para outra terra, outra que nos dê segurança, para além de abrigo. É claro que seria mais agradável ficar, ser mais consistente, dentro da credibilidade possível, mas, infelizmente ou felizmente, nada é linear. Nem nós, nem o mundo. E deixar o corpo morto, ao ponto de permitir que a mente morra também, será sempre mais fácil do que sair durante uma tempestade para, inutilmente, a fazer parar.
08 setembro, 2012
07 setembro, 2012
313
Eu vi isto e automaticamente pensei: olha, alguém no futuro tirou-nos uma fotografia, a mim e à Mia, e fê-la chegar até ao Eu-de-Agora via internet. E ri-me... porque estamos mesmo lindas. Porra, vamos ganhar o prémio das velhas sexys! Também adoro o facto de estarmos simplesmente a beber café, como se dentro dele não estivesse nada de suspeito. E a quantidade de bolos que andámos a comer, parece que no futuro o açúcar finalmente emagrece. Melhor ainda, vês aquele ramo de flores? Não sei o que dizer do ramo de flores... Espero que não sejam para mim, porque são feias. E os livros? Estão cheios de histórias lindas de morrer, um deles contém como personagem principal aquela moçoila que nós vimos no facebook há um molhe de anos atrás, quando ainda não haviam giletes. Mas, os álbuns de fotografias é que são mesmo o máximo, éramos mesmo fotogénicas quando novas. E em velhas também, olha-me para os nossos ricos dentes! O que eu não gosto é desses teus chinelos, feios como a merda. Mais vale andares descalça, mulher! Falando nisso, tenho cara de que preciso ir mijar, ou então estou só a ser irónica sobre o facto de não me conseguir levantar. E os cabelos brancos, nunca pensei, mas ficam-te a matar! Até aqui tudo bem. Não percebo é o que é estamos a fazer debaixo da mesa. Uma festa de alcatifas? Uma revolução contra cadeiras? Um ritual do clube das sanitas? O futuro o dirá. Isso e quem é o animal que nos tirou a fotografia. Mas deixa-me dizer-te, Mia-de-Agora, somos umas velhas muito hardcore.
28 agosto, 2012
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