Olhaste para mim e paraste, como se fosses dizer algo mais. No final, depois do tempo parar e da cara de parvo te passar, não era nada demais.
11 agosto, 2012
302
Tu mostraste proximidade, eu mostrei abertura. E então sorriste-me, como se hoje fosse sábado. Vieste com o ar modesto, sempre com a boca bem esticada. Falámos até tarde, combinámos um amanhã. Disse-te tons cor de rosa e tu um baú cheio de nada. O caminho ainda é longo, quinze minutos bastavam. Se um dia o sol deixar de se erguer, a lua não será mais a rainha. Como de costume, eu quis. Tu hesitaste.
07 agosto, 2012
Sem preço
Adoro o que não tem preço. No entanto, não deixa de ser difícil alcançar o sem preço. Está tão longe, como se estivesse no outro lado do continente. Como um peixe que sonha chegar ao cimo de uma árvore. E no entanto, a árvore está mesmo na margem do rio onde o peixe costuma nadar. Só espero pelo que não tem preço. Tudo o que faço é sonhar com o que não tem preço.
Sistema de cura
A cada ano que passa torna-se mais fácil encontrar-te no meio da multidão. E há qualquer coisa em ti que me faz voltar atrás. Poderia ficar a olhar-te como se não houvesse amanhã. Tudo o resto deixa de existir. Quando matamos saudades, parece que elas nunca existiram, e quando tenho de te dizer até amanhã, elas voltam a crescer. Como se houvesse algo que nos impede de colapsar, como se tivéssemos um sistema de cura imediata, estamos sempre em sintonia. Independentemente da última vez que nos vimos. Os meus olhos ficam grudados nos teus e tu não me queres deixar ir.
05 agosto, 2012
03 agosto, 2012
Razões
Mariamar deixou-se levar por todas as razões que aparentavam ser as mais acertadas. Ouviu-as e deixou-se inundar por elas. E então chorou, deixou-se chorar como se não houvesse amanhã, acabando por deitar tudo para fora, num confuso vomitado. Mariamar sentia medo, dizem que sentir medo significa que ainda se tem algo a perder, e ela tinha tanta coisa a perder que já nem contar pelos dedos sabia. Mesmo que sejam pontos que, individualmente, se tornam insignificantes, o seu conjunto formara uma avalanche de razões. Razões essas que a tornaram a pessoa mais triste, quem sabe até, deprimida, da galáxia. Deixou-se envolver pela tristeza e pelo medo, que lhe consumiram o corpo e lhe queimaram a alma, para que no dia seguinte conseguisse acordar e achar outras tantas razões para, dessa vez, não chorar.
31 julho, 2012
30 julho, 2012
Tertuliano
Tertuliano arrepende-se, mas só agora. Esta coisa, que lhe está a tirar a vida, fez com que olhasse para a sua vontade. Ela nunca foi avantajada desde que se soube o que havia de ser o seu futuro. Antigamente, quando ainda tinha força nas canelas e palavreado na garganta, todo ele era vontade de continuar. Agora as canelas rendem-se aos lençóis e a garganta a ser comida. Tertuliano arrepende-se agora, mas só agora, de não ter enfrentado os seus medos. Ele sabe que deveria ter lutado, de armas e bagagens. Deveria ter-se erguido e enchido o peito, gritar ao seu mundo que tudo iria ficar bem. Não deveria ter-se acomodado. Tertuliano arrepende-se, mas só agora, de ter dado, como presente, os seus medos a quem reza por ele. Deu a si próprio a espera de chegar à próxima fase, que será a última.
28 julho, 2012
Ideias
O que ele me disse encheu-me o coração. Fez valer a pena todas as discussões, todos os gritos, todas os choros. Ele disse-me, cheio de orgulho. E desta vez, sim, acredito que tenhamos achado os meios termos, onde nos podemos encontrar sem que mais ninguém precise de entrar. Ele disse-me e eu nada disse, porque falou pelos dois. Somos do mesmo sangue, acho que é por isso que às vezes não preciso de falar. Ele confia em mim como em ninguém e eu venero-o pelas vezes que teve de lutar e conseguiu vencer. Acabámos os dois por aprender em conjunto. E eu nunca me vou esquecer daquele momento, daquelas palavras.
"Eu oiço as tuas ideias e respeito-as,
tu ouves as minhas ideias e respeita-las também.
Não há ninguém que venha mexer com isso."
25 julho, 2012
22 julho, 2012
Adolescentes
Estes dias têm servido para afugentar a pessoa que achavas que eu era. Como podes ver, não sou mais a adolescente rebelde que quer tudo à sua maneira e que o quer só porque sim, para se afirmar e ser mais do que apenas uma adolescente dependente dos seus progenitores. A verdade é que continuo a ser uma criança, que ainda apanha escaldões porque se esquece de colocar protector solar, ainda choro quando me dói o corpo e ainda fico envergonhada quando sei que errei. Mas estou responsável pelo meu futuro, pela pessoa que me quero tornar, por quem acho que sou boa a sê-lo. Sei ser dona de casa sem esquecer que a minha prioridade é ser estudante. Sei que inevitavelmente sou filha dos meus pais e que, por escolha, não sou neta do meu avô, nem sobrinha de alguns tios. Em vez disso, sou irmã dos meus amigos. E todas estas decisões me fizeram crescer, porque não seria eu se não me tivesse revoltado e provado a mim mesma que ninguém conseguiria retirar-me do meu caminho. A questão é que tu és parte do meu caminho, mas não me podes impedir de escolher, apenas podes sussurrar qual para ti achas que é o melhor para mim. E eu vou ter isso em conta, mas as minhas ideias virão sempre em primeiro. Afinal de contas, tu não queres que viva toda uma vida debaixo das tuas calças.
17 julho, 2012
Fidelidade
Quem disse que as pessoas não mudam está totalmente errado. Ou então está certo, se a mudança consiste em deixar transparecer aquilo que tanto tempo mantiveram escondido. Mas isso não me importa quando se trata de desconhecidos. Mas com as minhas pessoas, quando elas mudam drasticamente e para pior, deixam de ser minhas, passam a ser de quem as consegue achar toleráveis quiçá, honráveis. Bom é saber que há quem não mude, que permanece fiel a si mesmo e fiel à amizade que comigo mantém. É isso de que o povo precisa, fidelidade.
16 julho, 2012
Irresolúvel
Não somos mais os adolescentes de ontem, cheios de egoismo, cheios de impaciência e imediatismo. Mas e depois? Continuamos no mesmo sítio. Esse há-de ser sempre o problema. Então para quê voltar atrás, percorrer o mesmo caminho, evitar as falhas e substitui-las pela maturidade que hoje temos? Espero ser a única a esconder estes caminhos abertos para o passado, a única a dizer a verdade mentindo. É que se não for, voltamos à mesma história, mas ainda mais triste e irresolúvel. Uma história burra onde não há amor que possa vencer.
15 julho, 2012
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