23 maio, 2012

Entre aspas (91)

Entre aspas (90)

22 maio, 2012

No sítio certo

No início, quase morremos de ansiedade, quase esfolamos a pele, quase arrancamos cabelos. Depois, tudo se entranha, tudo ganha forma. No fim, não queremos que acabe, não queremos voltar para a miséria de nada poder fazer.

Enfermagem 

Um dia vou perceber

Sonhei que uma amiga de longe me ligava, pedia desculpa por se ter enganado no número e disse-me, com toda a clareza, que agora tinha uma amiga melhor. Como é óbvio, mandei-a para a merda. Sonhei que assaltava uma casa e que no espelho da casa de banho via uma menina pequena, cheia de graça e de conselhos bons para dar. Juntas descobrimos quem realmente havia assaltado a casa, mesmo assim ela arrepiava-me. Sonhei que estávamos numa casa no oceano, não à beira-mar, e iria acontecer uma orgia. Videochamadas também aconteceram, não liguei a isso, porque de repente ia-me tornar prisioneira, quase escrava do dono da casa. E aí ele apareceu, para me defender, acho que não, talvez para não me deixar sozinha e acabou por admitir que tínhamos tido um caso. Fiquei parva. E o dono da casa obrigou-nos a ficar sequestrados juntamente. Sonhei que havia imensas sanitas, imensos quartos, imensos corredores, imensos gatos, imensos ursos de peluche, imensas pessoas que não conheci. Uma coisa não é certa, um dia vou perceber estes sonhos.

16 maio, 2012

Qualquer dia

Qualquer dia mudo-me para uma casa abandonada, onde só existem os desejos e os sonhos daqueles que já se foram. Como podem as pessoas ter medo daqueles que vivem em cinzas ou num caixão confinado, se são os vivos que tornam o nosso mundo não tão brilhante, como gostaríamos? Para mim, tudo é tão chato, tão cheio de regras e padrões, de facadas e chapadas, tão de sorrisos melosos e mentirosos. Quero voar daqui, era bom voar daqui para uma casa abandonada, fazê-la minha e enchê-la só de mim. Viveria solitária, mas acompanhada só das minhas coisas. Passaria os dias a escrever, a sonhar com o impossível, a desejar nunca me ter apaixonado pelas coisas maravilhosas da vida, a utilizar a máquina fotográfica para me recordar a mim própria, a ver o sol entre as pálpebras e a adormecer nas águas rasteiras. Nada mais seria necessário. Pelo menos, hoje é isso o que me apetecia.

14 maio, 2012

Preto e branco

Tudo é mais bonito, mais subtil, mais inteligente... a preto e branco. Digam o que disserem, tudo é mais perceptível a preto e branco, quando as cores se podem imaginar, quando tudo pode ganhar cor, ou ficar sem ela. O preto e o branco deixam tudo por dizer quando neles está tudo dito. Têm a magia de ocultar e desvendar o que os nossos olhos vêem. Quem não entender... tem tudo feito, tudo cheio, tudo definido. E como é bom ter espaço para imaginar, criar e esborratar. Preto e branco... tudo fosse a preto e branco.

12 maio, 2012

12 de Maio


♥ Dia do Enfermeiro 

(Deveria haver espaço suficiente para todos.
Somos tão precisos e cada vez mais nos querem cortar as asas.
Mas o orgulho permanece, porque iremos sempre fazer a diferença.)

11 maio, 2012

Entre aspas (89)


(Guess I'm not made for that.)

A última carta

Agora ficou consciente. Mudaste, eu mudei. Conheci novas pessoas, fi-las chegadas. Aproximei alguns antigos, deixe-te ir. Tu quiseste ir. Aquela breve conversa de ocasião apenas serviu para obter certezas. Muita coisa mudou. Eu quero ser enfermeira, tu queres ser... não faço ideia. E não faço ideia de nada do que seja a ti relativo. Apenas tenho as memórias e as fotografias espalhadas por aí. Quando chegar o verão, vou pensar em renovar, retirar o que se foi e acrescentar o que veio. Inevitavelmente eles tinham razão, o nosso destino era outro. Tanto que começaste a ser chegada a quem eu sempre gostei de ser inexistente, tanto que nunca tiveste noção de como eram as minhas paixonetas, tanto que só sabias as novidades quando já tinha contado aos outros. Apenas agradeço à pessoa que nunca me deixou ir e que sempre me mantém o mais perto possível. Ela sim, posso chamá-la de melhor. Mas, queres saber a verdade? Olho para ti e vejo outra pessoa, alguém que não conheço, alguém que me lembra uma amizade que um dia me foi tanto. Se olhares para mim, vais perceber, também já não me conheces, não fazes ideia das doenças que tive, dos problemas que enfrento, das coisas que já fiz ou das pessoas de quem gosto. Somos duas pessoas, que nada têm a ver uma com a outra.

08 maio, 2012

Pesadelos

Disseste-me que íamos ficar juntos sem abrir a boca. Esse teu jeito de ser alegre, esse teu jeito de ser ficar no silêncio e o meu jeito para ir atrás. Será que alguma vez cheguei a ganhar, mesmo antes de perder? Eu disse-te que o difícil não era perceber como estaríamos na realidade, era saber como queríamos que um dia a história fosse contada. A história ficou por contar, a desilusão ficou para ser amada. Trocámos o frio da incerteza pelo aconchego de nada começar e de nada fazer para resultar. Somos bons amigos, ninguém precisa de falar sobre isso e nós não precisamos de sentir falta disso.

Nós

Tenho um nó. E mais um nó. Esses nós não me deixa fazer nada. Odeio este nó. E também o outro. São nós que me tratam por tu e que me dão momentos de pura loucura. Alguém sabe desfazer nós, nós crónicos, nós que ganharam resistência à medicação?

06 maio, 2012

Conta e medida

Foi um daqueles dias em que só a chuva te consolou. Deixaste-a ser um pouco de ti e ela envolveu-te. Não conseguiu refrescar essas ideias baralhadas e, acima de tudo, desiludidas e magoadas. Mas fez-te perceber que às vezes tens de te libertar e deixar que as tuas lágrimas se fundem com a tua pele. Precisas de te libertar. Por vezes, deixares que os outros percebam como te sentes é o suficiente. Nas outras, tens de dar ouvidos às tuas preocupações. Mas já aprendeste, não há soluções perfeitas nem há regras de três simples. Só tu podes ir descobrindo e inventando a tua conta e medida.

28 abril, 2012

Entre aspas (88)

25 abril, 2012

Uma pequena nota

Há dias em tudo chove, incluindo tu próprio. Há dias em que corre tudo mal, até aquilo que tinha de andar sobre rodas. Há dias em que só estás bem sozinho, longe dos outros e das suas guerras. E depois esse dia finalmente termina. Não sei o que irá acontecer, mas tudo há-de aligeirar. Se tu quiseres.

23 abril, 2012

23 de Abril de 2002

O dia em que todo o rumo da minha história mudou. Nunca ninguém vai saber porquê, nem sei se os autores desta mudança o sabem. Mas há datas que não se esquecem, esta é talvez a única que me vai afectar durante todo o resto da minha vida. Já lá vão dez anos. Dez anos a lutar contra uma coisa que nunca me vai ceder.

22 abril, 2012

Entre aspas (87)

19 abril, 2012

Intimidade

Mais uma vez, acordaste muito cedo e entraste pela porta da rua enquanto ainda estava na tua cama. A tua casa é estranha, apenas a casa de banho é separada do resto, por isso, fingir que ainda estou a dormir é uma tarefa difícil, mas dá para ficar de olhos fechados. Apenas vejo a claridade que o sol trouxe, e oiço os teus passos a aproximarem-se. Sei que não vens ter comigo, a nossa estranha intimidade ainda não evoluiu para esse patamar. Agora, ainda preferes dar-me todo o espaço e todo o tempo. Ficas distante, como se não estivesse cá, como se a nossa relação fosse algo de passageiro. Comportas-te como se tivesses medo que um dia saísse pela mesma porta que agora entraste e que nunca mais voltasse. Ou que o sono te roube o amor que te dou e a rapariga que agora é tua. Sabes que isso é mentira, estou para ficar, tal como tu vieste para nunca ir. Brevemente, irás perder a timidez e irás voltar para a tua cama, irás abraçar-me como quando morres de saudades minhas. Quem sabe, um dia, não irei chamar a tua cama de minha. Volto a ouvir passos, agora cada vez mais próximos de mim, e começo então a sentir a tua respiração sobre os meus cabelos. Parece que estiveste a ouvir os meus pensamentos, parece que tudo o que esperava está finalmente a acontecer.

Entre aspas (86)

12 abril, 2012

Tempo foi-se

Estes dias em que só venho a casa para dormir servem para não pensar em mais nada excepto hospitais, terapêutica, doentes, planos, registos, pensos, fracturas, próteses, ligaduras, agulhas, frascos e frasquinhos. E, claro, conversas de mesa e de cama. Algo de muito errado se passa, mas não tenho tempo para isso. Não tenho tempo sequer para dizer olá às pessoas de quem gosto. Ser jovem adulta é estar em constante corrida sem poder parar.

11 abril, 2012

Entre aspas (85)

07 abril, 2012

Entre aspas (84)

Alguém

Só quero alguém que se importe, alguém que dê tudo por um dia melhor. Alguém que me tire a atenção das coisas banais, alguém que me transforme o estômago em borboletas e que deixe tudo a vermelho vivo. Só quero alguém que seja verdadeiro, fiel e maior que tudo o resto. Alguém que não sei se existe, mas que parece impossível de existir. Alguém como alguém foi, alguém como nunca ninguém conseguiu ser.

03 abril, 2012

Entre aspas (83)

02 abril, 2012

Entre aspas (82)

Espécie de loucura

Não sei se é de mim, se é dos outros, se é da espécie de loucura em que todos vivemos, mas há sempre algo que está incrivelmente deslocado. Apetece-me afundar em sonhos impossíveis e em músicas depressivas. Por outro lado, quero fechar os olhos e movimentar o corpo como se parar fosse mesmo morrer. Coisas que ficam por fazer, são pesos na consciência que não se deixam esquecer. Temos problemas de personalidade, acho que é isso. Ou então, andamos a dormir bem demais.