11 maio, 2012

A última carta

Agora ficou consciente. Mudaste, eu mudei. Conheci novas pessoas, fi-las chegadas. Aproximei alguns antigos, deixe-te ir. Tu quiseste ir. Aquela breve conversa de ocasião apenas serviu para obter certezas. Muita coisa mudou. Eu quero ser enfermeira, tu queres ser... não faço ideia. E não faço ideia de nada do que seja a ti relativo. Apenas tenho as memórias e as fotografias espalhadas por aí. Quando chegar o verão, vou pensar em renovar, retirar o que se foi e acrescentar o que veio. Inevitavelmente eles tinham razão, o nosso destino era outro. Tanto que começaste a ser chegada a quem eu sempre gostei de ser inexistente, tanto que nunca tiveste noção de como eram as minhas paixonetas, tanto que só sabias as novidades quando já tinha contado aos outros. Apenas agradeço à pessoa que nunca me deixou ir e que sempre me mantém o mais perto possível. Ela sim, posso chamá-la de melhor. Mas, queres saber a verdade? Olho para ti e vejo outra pessoa, alguém que não conheço, alguém que me lembra uma amizade que um dia me foi tanto. Se olhares para mim, vais perceber, também já não me conheces, não fazes ideia das doenças que tive, dos problemas que enfrento, das coisas que já fiz ou das pessoas de quem gosto. Somos duas pessoas, que nada têm a ver uma com a outra.

08 maio, 2012

Pesadelos

Disseste-me que íamos ficar juntos sem abrir a boca. Esse teu jeito de ser alegre, esse teu jeito de ser ficar no silêncio e o meu jeito para ir atrás. Será que alguma vez cheguei a ganhar, mesmo antes de perder? Eu disse-te que o difícil não era perceber como estaríamos na realidade, era saber como queríamos que um dia a história fosse contada. A história ficou por contar, a desilusão ficou para ser amada. Trocámos o frio da incerteza pelo aconchego de nada começar e de nada fazer para resultar. Somos bons amigos, ninguém precisa de falar sobre isso e nós não precisamos de sentir falta disso.

Nós

Tenho um nó. E mais um nó. Esses nós não me deixa fazer nada. Odeio este nó. E também o outro. São nós que me tratam por tu e que me dão momentos de pura loucura. Alguém sabe desfazer nós, nós crónicos, nós que ganharam resistência à medicação?

06 maio, 2012

Conta e medida

Foi um daqueles dias em que só a chuva te consolou. Deixaste-a ser um pouco de ti e ela envolveu-te. Não conseguiu refrescar essas ideias baralhadas e, acima de tudo, desiludidas e magoadas. Mas fez-te perceber que às vezes tens de te libertar e deixar que as tuas lágrimas se fundem com a tua pele. Precisas de te libertar. Por vezes, deixares que os outros percebam como te sentes é o suficiente. Nas outras, tens de dar ouvidos às tuas preocupações. Mas já aprendeste, não há soluções perfeitas nem há regras de três simples. Só tu podes ir descobrindo e inventando a tua conta e medida.

28 abril, 2012

Entre aspas (88)

25 abril, 2012

Uma pequena nota

Há dias em tudo chove, incluindo tu próprio. Há dias em que corre tudo mal, até aquilo que tinha de andar sobre rodas. Há dias em que só estás bem sozinho, longe dos outros e das suas guerras. E depois esse dia finalmente termina. Não sei o que irá acontecer, mas tudo há-de aligeirar. Se tu quiseres.

23 abril, 2012

23 de Abril de 2002

O dia em que todo o rumo da minha história mudou. Nunca ninguém vai saber porquê, nem sei se os autores desta mudança o sabem. Mas há datas que não se esquecem, esta é talvez a única que me vai afectar durante todo o resto da minha vida. Já lá vão dez anos. Dez anos a lutar contra uma coisa que nunca me vai ceder.

22 abril, 2012

Entre aspas (87)

19 abril, 2012

Intimidade

Mais uma vez, acordaste muito cedo e entraste pela porta da rua enquanto ainda estava na tua cama. A tua casa é estranha, apenas a casa de banho é separada do resto, por isso, fingir que ainda estou a dormir é uma tarefa difícil, mas dá para ficar de olhos fechados. Apenas vejo a claridade que o sol trouxe, e oiço os teus passos a aproximarem-se. Sei que não vens ter comigo, a nossa estranha intimidade ainda não evoluiu para esse patamar. Agora, ainda preferes dar-me todo o espaço e todo o tempo. Ficas distante, como se não estivesse cá, como se a nossa relação fosse algo de passageiro. Comportas-te como se tivesses medo que um dia saísse pela mesma porta que agora entraste e que nunca mais voltasse. Ou que o sono te roube o amor que te dou e a rapariga que agora é tua. Sabes que isso é mentira, estou para ficar, tal como tu vieste para nunca ir. Brevemente, irás perder a timidez e irás voltar para a tua cama, irás abraçar-me como quando morres de saudades minhas. Quem sabe, um dia, não irei chamar a tua cama de minha. Volto a ouvir passos, agora cada vez mais próximos de mim, e começo então a sentir a tua respiração sobre os meus cabelos. Parece que estiveste a ouvir os meus pensamentos, parece que tudo o que esperava está finalmente a acontecer.

Entre aspas (86)

12 abril, 2012

Tempo foi-se

Estes dias em que só venho a casa para dormir servem para não pensar em mais nada excepto hospitais, terapêutica, doentes, planos, registos, pensos, fracturas, próteses, ligaduras, agulhas, frascos e frasquinhos. E, claro, conversas de mesa e de cama. Algo de muito errado se passa, mas não tenho tempo para isso. Não tenho tempo sequer para dizer olá às pessoas de quem gosto. Ser jovem adulta é estar em constante corrida sem poder parar.

11 abril, 2012

Entre aspas (85)

07 abril, 2012

Entre aspas (84)

Alguém

Só quero alguém que se importe, alguém que dê tudo por um dia melhor. Alguém que me tire a atenção das coisas banais, alguém que me transforme o estômago em borboletas e que deixe tudo a vermelho vivo. Só quero alguém que seja verdadeiro, fiel e maior que tudo o resto. Alguém que não sei se existe, mas que parece impossível de existir. Alguém como alguém foi, alguém como nunca ninguém conseguiu ser.

03 abril, 2012

Entre aspas (83)

02 abril, 2012

Entre aspas (82)

Espécie de loucura

Não sei se é de mim, se é dos outros, se é da espécie de loucura em que todos vivemos, mas há sempre algo que está incrivelmente deslocado. Apetece-me afundar em sonhos impossíveis e em músicas depressivas. Por outro lado, quero fechar os olhos e movimentar o corpo como se parar fosse mesmo morrer. Coisas que ficam por fazer, são pesos na consciência que não se deixam esquecer. Temos problemas de personalidade, acho que é isso. Ou então, andamos a dormir bem demais.

29 março, 2012

Disco externo

Quando precisas de ir buscar o disco externo, já sabes que vais acabar por mergulhar nas coisas que já esqueceste e que adoras relembrar. É instantâneo, mal acabas de ver o que te levou ali, veste inundada de coisas antigas. Pessoas que já se foram, palavras que te magoam, lugares que sabes que já não são teus, sorrisos que te fazem chorar, brincadeiras que te provocam as maiores gargalhadas. E dói tanto. Dói ver as pessoas que um dia abraçaste e chamaste de eternas. Algumas provam-te que são duras de roer e que persistem. Mas as outras, criam-te um buraco no coração, mais uma vez. E, por fim, acabas por ver o quanto mudaste. Já deixaste os óculos para andar por casa, já retiraste o aparelho dos dentes, já tens o cabelo comprido e macio, já tens o peso dos vinte anos e a consciência de mais vinte para te avisar que o tempo está a passar e que, em alguns aspectos, fraquejaste e deixaste-os por aprofundar.

28 março, 2012

Entre aspas (81)

24 março, 2012

2 de Outubro, 2010

E eu não sei que amor tenho dentro de mim para dar, não sei ainda se quero algum receber, não sei dos quilos de amor de que fui feita um dia, é isso, eu não sei. Não sei do amor.

Entre aspas (80)

23 março, 2012

Dejavú

Custa sempre ir, mas nunca custa voltar. É como se fosse um dejavú, repete-se tudo outra vez, mais uma vez, e não percebes porque não o consegues parar. Acho que é mesmo assim, aprendemos a não deixar ir e depois caímos na rede que já morre de velha. Mas desta vez vai ser diferente. Ou isso ou as garras que nos prendem ao presente irão sucumbir de tanta força para que tudo seja melhor do que em tempos foi.

20 março, 2012

Entre aspas (79)

19 março, 2012

Entre aspas (78)

Cá estão

Cá estão os baixos. Cá estão os silêncios que se lamentam, mas não se partilham. É inevitável quando o percurso na calçada nos leva a cozer o fígado, ainda para mais quando estamos calejados de tanto ferver a bílis. E pior do que subir a ravina da altura das nossos medos, é temer que nunca mais iremos desfrutar da queda de os ver sucumbir. Cá estão as vísceras, saindo pela pequena ferida que se rasgou no cotovelo. Cá estão as coisas que não se dizem, as coisas guardadas que, uma vez libertadas, podem quebrar os ossos que nos sustém de pé. Cá estão os danos nas relações que a custo vão sarando.