Mais uma vez, acordaste muito cedo e entraste pela porta da rua enquanto ainda estava na tua cama. A tua casa é estranha, apenas a casa de banho é separada do resto, por isso, fingir que ainda estou a dormir é uma tarefa difícil, mas dá para ficar de olhos fechados. Apenas vejo a claridade que o sol trouxe, e oiço os teus passos a aproximarem-se. Sei que não vens ter comigo, a nossa estranha intimidade ainda não evoluiu para esse patamar. Agora, ainda preferes dar-me todo o espaço e todo o tempo. Ficas distante, como se não estivesse cá, como se a nossa relação fosse algo de passageiro. Comportas-te como se tivesses medo que um dia saísse pela mesma porta que agora entraste e que nunca mais voltasse. Ou que o sono te roube o amor que te dou e a rapariga que agora é tua. Sabes que isso é mentira, estou para ficar, tal como tu vieste para nunca ir. Brevemente, irás perder a timidez e irás voltar para a tua cama, irás abraçar-me como quando morres de saudades minhas. Quem sabe, um dia, não irei chamar a tua cama de minha. Volto a ouvir passos, agora cada vez mais próximos de mim, e começo então a sentir a tua respiração sobre os meus cabelos. Parece que estiveste a ouvir os meus pensamentos, parece que tudo o que esperava está finalmente a acontecer.
19 abril, 2012
12 abril, 2012
Tempo foi-se
Estes dias em que só venho a casa para dormir servem para não pensar em mais nada excepto hospitais, terapêutica, doentes, planos, registos, pensos, fracturas, próteses, ligaduras, agulhas, frascos e frasquinhos. E, claro, conversas de mesa e de cama. Algo de muito errado se passa, mas não tenho tempo para isso. Não tenho tempo sequer para dizer olá às pessoas de quem gosto. Ser jovem adulta é estar em constante corrida sem poder parar.
11 abril, 2012
07 abril, 2012
Alguém
Só quero alguém que se importe, alguém que dê tudo por um dia melhor. Alguém que me tire a atenção das coisas banais, alguém que me transforme o estômago em borboletas e que deixe tudo a vermelho vivo. Só quero alguém que seja verdadeiro, fiel e maior que tudo o resto. Alguém que não sei se existe, mas que parece impossível de existir. Alguém como alguém foi, alguém como nunca ninguém conseguiu ser.
03 abril, 2012
02 abril, 2012
Espécie de loucura
Não sei se é de mim, se é dos outros, se é da espécie de loucura em que todos vivemos, mas há sempre algo que está incrivelmente deslocado. Apetece-me afundar em sonhos impossíveis e em músicas depressivas. Por outro lado, quero fechar os olhos e movimentar o corpo como se parar fosse mesmo morrer. Coisas que ficam por fazer, são pesos na consciência que não se deixam esquecer. Temos problemas de personalidade, acho que é isso. Ou então, andamos a dormir bem demais.
29 março, 2012
Disco externo
Quando precisas de ir buscar o disco externo, já sabes que vais acabar por mergulhar nas coisas que já esqueceste e que adoras relembrar. É instantâneo, mal acabas de ver o que te levou ali, veste inundada de coisas antigas. Pessoas que já se foram, palavras que te magoam, lugares que sabes que já não são teus, sorrisos que te fazem chorar, brincadeiras que te provocam as maiores gargalhadas. E dói tanto. Dói ver as pessoas que um dia abraçaste e chamaste de eternas. Algumas provam-te que são duras de roer e que persistem. Mas as outras, criam-te um buraco no coração, mais uma vez. E, por fim, acabas por ver o quanto mudaste. Já deixaste os óculos para andar por casa, já retiraste o aparelho dos dentes, já tens o cabelo comprido e macio, já tens o peso dos vinte anos e a consciência de mais vinte para te avisar que o tempo está a passar e que, em alguns aspectos, fraquejaste e deixaste-os por aprofundar.
28 março, 2012
24 março, 2012
2 de Outubro, 2010
E eu não sei que amor tenho dentro de mim para dar, não sei ainda se quero algum receber, não sei dos quilos de amor de que fui feita um dia, é isso, eu não sei. Não sei do amor.
23 março, 2012
Dejavú
Custa sempre ir, mas nunca custa voltar. É como se fosse um dejavú, repete-se tudo outra vez, mais uma vez, e não percebes porque não o consegues parar. Acho que é mesmo assim, aprendemos a não deixar ir e depois caímos na rede que já morre de velha. Mas desta vez vai ser diferente. Ou isso ou as garras que nos prendem ao presente irão sucumbir de tanta força para que tudo seja melhor do que em tempos foi.
20 março, 2012
19 março, 2012
Cá estão
Cá estão os baixos. Cá estão os silêncios que se lamentam, mas não se partilham. É inevitável quando o percurso na calçada nos leva a cozer o fígado, ainda para mais quando estamos calejados de tanto ferver a bílis. E pior do que subir a ravina da altura das nossos medos, é temer que nunca mais iremos desfrutar da queda de os ver sucumbir. Cá estão as vísceras, saindo pela pequena ferida que se rasgou no cotovelo. Cá estão as coisas que não se dizem, as coisas guardadas que, uma vez libertadas, podem quebrar os ossos que nos sustém de pé. Cá estão os danos nas relações que a custo vão sarando.
15 março, 2012
13 março, 2012
Fantasmas
O lugar mais seguro que conheces não é debaixo das cobertas. E por mais que te possas sentir sozinho, nunca estarás só. Terás sempre os teus fantasmas para te deixar na insegurança e te acompanhar para onde quer que vás. Eles transformam-se nos teus melhores amigos e a partir daí torna-se muito mais difícil encontrar o caminho para a superfície. Parece que mergulhaste numa queda sem fundo.
12 março, 2012
Medidas
À medida que ele cresce e à medida que os anos vão passando no calendário, ele vai percebendo o porquê de não conseguir suportar as pessoas durante dias a fio. Como se lhe tivessem escrito uma carta onde nela constasse a sua sentença de morte, ele compreendeu. Está a tornar-se tão diferente das pessoas que admira e das pessoas que despreza que apenas o silêncio não compartilhado lhe trás cumplicidade. Diferente, insubstituível, único. No entanto, cada vez mais indefinível, irreconhecível. São várias as perguntas que o vão assombrando, mas nem a uma é capaz de responder. Ele apenas sabe que precisa de espaço para as organizar e classificar, sem que alguém lhe tente impor uma resposta que não cabe nas suas medidas.
09 março, 2012
08 março, 2012
As tuas meninas
Hoje, as tuas meninas, lembraram-se de ti, mais do que é normal lembrar. Eu, porque uma colega falou de uma situação familiar de doença. Ela, porque viu as mensagens antigas que a tentavam consolar em vão depois da tua partida. Eu, tentava lembrar-me, não do momento, mas da data e da aula que estava a ter quando soube da notícia. Ela, soube pelas mensagens que foi há quase três anos. Eu, contei-lhe que a primeira memória que me ocorre é de ti a sorrir no só teu sorriso maroto. Ela, contou-me que estranhou ser já há tanto tempo. Ambas tentámos não chorar ao telefone, ambas tentámos recordar-te um pouco. O nosso consolo é que acreditamos que estejas a cuidar de nós, de uma forma que nunca conseguiste fazer enquanto ainda te podíamos ver.
04 março, 2012
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