26 setembro, 2011

Lugar

O lugar da paragem de autocarros, desapareceu, fecharam o recinto da casa e mudaram a paragem para o outro lado da rua. O lugar onde percebi que não dizias a verdade, nem tão pouco a mentira, já não existe mais. O nosso lugar não é mais o nosso lugar. Mesmo depois de ter passado algum tempo, ainda é triste lembrar-me que esse lugar escondido, próprio para declarações de amor, declarações de impossibilidade ou uma mistura das duas, faz apenas parte das nossas lembranças. Pergunto-me se te doeu tanto como a mim, ver a inexistência daquela paragem de autocarros.

25 setembro, 2011

Vida própria

É como ver a dobrar, é ir e voltar, é sentir sem ver e conseguir sem realmente se mover. E no final das contas, depois de dias e dias debruçada na varanda, o sangue percorre-me a cabeça e a mistura de tanta coisa feita de nada dá-se num impacto de novidade. Brincamos com as palavras e queremos dar-lhes o significado que nem nós entendemos. Mas queremos, mais que tudo, que elas façam sentido, porque se o fizerem, então tudo o resto pode ir com os porcos, com as vacas e com os bodes. Nada mais nos fará andar à roda, como um carrocel que sabe que não irá a lado nenhum e que nunca poderá parar. Iremos apenas emergir e as palavras agrupam-se sem ajuda, saem de nós como micróbios entram. Ouvi dizer que elas têm vida própria, ouvi dizer que nem elas percebem o querem dizer.

17 setembro, 2011

Mudanças

Tudo muda lentamente, e às vezes tudo o que podemos fazer é assistir, sentados numa cadeira confortável, a ver tudo o que vai mudando. Os nossos amigos crescem, evoluem, vão fazendo novos amigos, entram finalmente para a faculdade, arranjam namorados e namoradas, acabam com o namoro de longa data, começam a fumar, mudam de cidade, cometem os maiores erros da vida deles, dão os melhores passos que alguma vez darão, bebem até não poder mais, trabalham em algo que nunca gostaram realmente. E no fim da grande mudança estar completa, pergunta-mo-nos qual é o nosso papel no meio disso tudo. Só que a resposta, é que também nós já demos a volta à nossa vida e eles ficaram sentados a assistir e a ver-nos partir, a crescer e a mudar o padrão de conforto, quando, um dia, estivemos todos na mesma prateleira, a imaginar que voltas nos esperariam. E esperamos, ambas as partes, que a vida trace-nos caminhos que nos levem até uns aos outros, o que, com alguns, nunca acontece.

15 setembro, 2011

Forasteiro

Quando me lembro de ti, espero com todas as forças que tudo o que fiz contigo tenha valido a pena. Mas no segundo seguinte, a minha alma fica pequena, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Então começo a pensar que, provavelmente, não valeu assim tanta pena para ti, tendo em conta que as nossas gargalhadas não mais se encontraram. Espero que a tua alma não fique como a minha, isso seria um grande disparate da parte de ambos. Até qualquer dia, forasteiro.

14 setembro, 2011

Entre aspas (40)


Os melhores erros são cometidos com os maiores amigos.
Ficam as melhores memórias e as maiores saudades.

11 setembro, 2011

Terreno fértil

Nunca seremos totalmente prisioneiros das nossas ambições, temos o espírito livre dentro de uma caixa esburacada, de onde poderemos sempre escapar, às escondidas, para viver uma vida paralela, quem sabe, conjunta, com aquela que todos pensam que a ela estamos presos. Nunca estaremos confinados aos estereótipos que consomem a sociedade e as pessoas que nos julgam a toda a hora, somos o fogo que queima e o ar e a água que o apaga, com o equilíbrio de um felino e a liberdade de um pássaro, saíremos por aí até encontrar uma rua sem fim, para nela descobrir uma nova saída. Nunca seremos quem esperam que somos, temos o mundo para descobrir e o poder de nos transformarmos em algo que não entendem, poderemos sempre vestir a pele que guardamos para momentos como estes, em que tudo o que parece impossível se concretiza. Ninguém nos pode dizer como viver a nossa vida, ela é nossa e nós adoramos ser um mistério, até para nós próprios, mas encontraremos sempre uma nova maneira de pisar terreno fértil.

09 setembro, 2011

Rumo de um filme

- Gostavas que a tua vida fosse diferente?
- Não, mas gostava que ela tomasse o rumo de um filme.
- Não percebo.
- É simples, nos filmes, toda a gente sofre, toda a gente tem de enfrentar as circunstâncias, mas...
- Conseguem sempre aprender uma lição e achar o caminho certo.
- E acabam por viver felizes.
- Sim, também quero ser um filme.
- Talvez façamos um os dois.
- Um em que acabamos por ficar juntos no fim.
- Isso já é sonhar muito alto.
- Nunca se sabe.
- É, a vida dá muitas voltas.

06 setembro, 2011

Entre aspas (39)

01 setembro, 2011

Setembro

Chegou Setembro. Com ele chegou o tempo de colocar a cabeça no sítio certo e de ocupar o meu tempo de forma correcta, seja lá isso o que irá ser. Acabaram-se as oportunidades de chegar perto dele. Acabou-se a paciência para esperar. Irá ser como já foi, irei esquecer, por que o tempo será tão pouco que não chegará para pensar no que não devo. Tenho saudades, não vou mentir. Mas tal como se chega perto, chega-se a ficar longe, tão longe que já nem lembro em concreto de nenhuma conversa que tivemos. Chegou Setembro e com ele chegou o fim de algo que nunca teve propriamente início. Parece que a minha amizade por ele não era assim tão forte ou tão necessária de preservar. Simplesmente, deixei de acreditar nas palavras que tantas vezes o obriguei a dizer-me. O verbo adorar nunca lhe ficou bem, ele não o sabe utilizar ou fazer ser. Setembro não faz milagres, mas faz-me saber as prioridades. Só me arrependo de desejar o Verão. Ele nada me trouxe. Não me trouxe o calor, as tardes no mar ou as amizades que um dia desejei que fossem para sempre. Trouxe-me nada para fazer e muito em que pensar.

31 agosto, 2011

Tenha um bom dia

D. Gertrudes, no seus sessenta e muitos anos, estava a contemplar o mar, quando se recordou do que, ainda hoje, lhe aconchegava a alma. Encontrava-se a percorrer o habitual caminho para o local de trabalho. Regularmente, desviava-se de tantos pedintes, de associações ou de cariz pessoal, abanando a cabeça e desviando o olhar, apressando o passo, ao mesmo tempo que lhe crescia a angústia de saber que nunca poderia ajudar tal como todo o ser humano merecia. Afastava-se, perguntando-se porquê, tentando desviar os tais pensamentos, que lhe enchiam a mente, e quem sabe, o coração, porque o seu não era de pedra, achava-se feito de manteiga, sempre que se cruzava com a miséria de muitos e com a sorte de poucos. Era-lhe difícil aguentar o peso de estar razoavelmente bem na vida e ter de virar a face a quem precisava, enquanto que outros que gastavam milhões em futilidades e bens desnecessários. Até que, um senhor extremamente simpático e sorridente lhe veio pedir dinheiro, já nem se lembra para quê, mas ficou-lhe na memória as palavras simples e bem dispostas daquele senhor. Pediu-lhe cinco euros, referenciando que tinha Sida, D. Gertrudes declarou que não era rica e que iria precisar do dinheiro que tinha consigo para o dia que corria. Então o senhor pediu-lhe apenas o que lhe podia dar, acrescentado que a sua doença não se pegava pelas palavras e que não era por isso que lhe iria fazer mal. Enquanto remexia nos trocos da sua carteira, D. Gertrudes sorria e disse-lhe que sabia perfeitamente que aquela doença não impedia uma simples conversa. Entregou-lhe dois euros, continuando a sorrir. O senhor agradeceu pelas moedas, desejou-lhe um bom dia e no fim, como se para ele aquela tivesse sido a maior oferta de várias semanas, agradeceu-lhe o facto de ser uma senhora que não teve medo de lhe sorrir e de estar ali a desejar-lhe também um bom dia.

23 agosto, 2011

É qualquer coisa

O estar prestes a fazer algo tão importante que não sei como o meu coração não me salta pela boca, o comer uma travessa de caracóis sem me importar com os dedos lambuzados, o ir no carro com os amigos e cantarolar em conjunto as músicas de que gostamos, o dormir com alguém pensando ao mesmo tempo na pessoa com quem queria realmente estar, a partilha de sussurros cúmplices no meio da estrada e no início da madrugada, a sensação de desconforto após dormir numa viagem de carro, o estômago a contorcer-se com falta de comida, o choro que vem com os filmes que me tocam sem haver explicação, as dores de barriga das gargalhadas dadas com as pessoas de quem mais gosto, a preguiça de ir estudar sabendo que é isso que tenho mesmo de fazer, a esperança de que um dia tudo o que sonho irá ser verdade, o gozo que me dá de dar trela a quem sei que nunca irá ter nada de mim, o sentir a água rodear todo o meu corpo que fica fresco e como novo, as letras das músicas que descrevem tudo o que não tenho coragem ou que não posso dizer, o desespero que vem sempre a qualquer altura e que me consome até não aguentar mais, as saudades que nunca mais acabam, a incerteza de pertencer aos lugares por onde ando, a certeza de que se um dia correr mal poderei mudar tudo ou quase tudo.

22 agosto, 2011

Entra aspas (38)


Uma das verdades que nunca dizes por palavras.

19 agosto, 2011

Morrer com noção

Tenho tantas lembranças que vão e vêm, mas que nunca se perdem no esquecimento. Dão sinal de si quando menos espero e fazem-me recordar os tempos que um dia em tudo foram novos e que agora são já velhos. O ouvir uma música que alguém me acabou de enviar, os nomes carinhosos que chamei a cada pessoa, o dar as mãos, o sorriso cheio de pedidos e desejos, o não conseguir fazer a bicicleta entrar na garagem, o olhar um desconhecido nos olhos no meio da multidão, o obrigado de alguém a que apenas deixar passar, as gargalhadas da pessoa que mais me fez feliz, as caretas que fizeram odiar-me por não estar mais perto, o arrependimento por não saber utilizar as palavras que não magoam, o barulho do aspirador do qual o cobertor ingenuamente me protege, a concordância numa conversa séria que reforça as relações, o vento que faz roçar o cabelo nas costas, o mar que se enrola e desenrola numa melodia perfeita, a sensação de ler uma mensagem calorosa, a expectativa de querer que tudo dê certo, o terminar um livro e desejar que nunca tivesse acabado, a tristeza quando a desilusão acaba mais uma vez por chegar, o toque inesperado que me faz dar um salto, as ideias novas e vazias de sentido, o álcool a percorrer a garganta para mais tarde me deixar leve, o chocolate a derreter-se sobre a língua, a adrenalina que os elevadores me teimam em fazer circular, o sol a queimar a pele, o cheiro do verniz acabado de pintar, o peso no ombro da mala a abarrotar, o arrepio que percorre a coluna e tem sempre a ver com alguém muito especial. Todas estas lembranças trazem consigo o ritmo da vida que levei e das escolhas que fiz, das pessoas de que gostei e dos momentos que a minha alma resolveu guardar como um tesouro. Não seria nada sem essas memórias e não quero perdê-las. Quero morrer com noção do que fui e do que nunca consegui ser.

18 agosto, 2011

Já chega

Da próxima vez que me entrares nos sonhos, por favor, vai-te embora. Já me chega de idiotas na rifa, de indecisos e de cobardes. Da próxima vez, faz como se eu não existisse, só assim conseguirás facilitar-me a vida.

15 agosto, 2011

Entre aspas (37)

Escrever, riscar e deitar fora

Parece que nada do que eu faça te faz desaparecer. Parece que estás cravado na minha cabeça e em todos os pensamentos que tenho e tento não ter. É tão frustrante achar alguém com as mesmas linhas faciais que tu e ficar a olhar só porque me faz lembrar de ti e das memórias. E lembrei-me de que o sítio em que percebi o que se passava contigo já não existe mais. Foi-se. E parece que com ele se foi a esperança de um dia ficarmos juntos. Como se não tivesse ido já, mas foi mais uma facada no teu nome. Já nem o consigo ler direito, o que vale é que te sei de cor. Mas de que vale isso, até porque já nem próximos somos. Estamos tão distantes. Foste ou fui eu? Foi minha culpa não ter feito a prova dos nove ou foste tu que foste cobarde ao ponto de deixares a tua vida de parte? A sério, eu tento, mas ninguém será melhor que tu. Ninguém terá mais jeito para me fazer rir, sorrir tão naturalmente, gozar contigo e tu fingires que não fui bruta demais. Ninguém me respeitará mais que tu. E sabes, era isso que queria, ninguém poderia ser melhor que tu. Agora estou a desistir dessa ideia e tudo o que penso é que estou a trair-me, a mim própria. Já passou tanto tempo e parece que foi ontem. Tenho saudades. E não tomei nada esquisito, apenas sou eu a falar. E tu nunca respondes às minhas perguntas, sejam elas directas ou meio aldrabadas. Isso irrita-me, tu irritas-me quando  não deixas os momento rolarem. Tal como são ridículas as cartas de amor ou os desabafos sobre ele. Estás longe e às vezes parecia que estavas tão perto. Acho eu que estivemos perto.

14 agosto, 2011

Era bom

Um abraço de alguém que ainda não teve tempo para me desiludir, que nunca terá tempo para me iludir e que sempre terá tempo para um abraço muito longo, era bom.

10 agosto, 2011

Entre aspas (36)

08 agosto, 2011

Nossa casa

Nada é ou será como a família. Apesar das desilusões e das inúmeras confusões, ela nunca se vai embora. Nunca nos deixa sozinhos e tem sempre um sorriso para nos dar, mesmo quando apenas sentimos que fomos abandonados. Sabe dizer o quanto somos bons e o que ainda nos falta melhorar, sem nunca nos tirar do lugar que sempre terá o nosso nome, escrito e gravado, preto no branco. Tem as mais fortes das ligações e os mais frágeis dos corações, mas tem sempre um cuidado e um querer que ultrapassa qualquer sentimento. Dá-nos as asas para voar e dá-nos as cordas para não nos perdemos nos imensos céus por descobrir. Ela é a nossa casa e o colo dela será sempre onde podemos rir e chorar sem que, por isso, sejamos menos do que já fomos.

04 agosto, 2011

5 # Carta para os teus sonhos

Não podem ser a ser mais reais, mais concretizáveis? Estou cansada das dores de cabeça que vocês me dão. E as ilusões? Não são mais que esperanças já de si mortas. Chegam a ser cruéis, vocês.

03 agosto, 2011

Entre aspas (35)

Promessas

Promessas deixadas ao vento, que as leva para longe, sem destino ou direcção, leva-as e não as trás de volta, deixa-as perdidas no tempo, pretas de esperança, vermelhas de emoção, e nunca ninguém mais as vê, se não o vento, que as leva consigo, como suas secretas amantes, como suas deliberadas companheiras, são essas as promessas esquecidas, perdidas no tempo, com a ajuda do vento, sem nenhuma outra maneira de voltar ao presente e se darem como cumpridas, feridas elas ficaram, voando elas se desfizeram, as amantes do vento, em pequenas finas linhas cheias de promessas por cumprir.

02 agosto, 2011

Entre aspas (34)

4 # Carta para o teu irmão

Se tivesses nascido, seríamos o abrigo um do outro, seríamos cúmplices. Gostaria imenso de te conhecer, de te ver crescer e de me zangar contigo. De certeza que todos adorariam ter-te nesta estranha família.

Provas

Não há nada que a sangria e um bom amigo não ajudem a suportar. Ontem foi a prova disso. Mais dias virão como prova, mas de fogo. E a única verdade para mim nestes últimos anos é que não há amores que acabem com amizades, desde que estas sejam genuínas. Também tenho provas disso. São provas a mais, acções a menos. Palavras por dizer e expressões que não têm explicação.