12 dezembro, 2010

Nossos

Dizem que as coisas só mudam quando assim queremos. Não é verdade. Há sempre alturas da nossa história em que não podemos escolher ficar com o dinheiro e comprar o doce, porque não é possível ficar com ambos. Só peço que nada separe os que, verdadeiramente, se gostam e se respeitam. Já que nada irá substituir os rituais tão próprios, apenas se pode aproveitar as poucas horas, que mais parecem breves minutos, e fazê-las durar até ao máximo. Nada de nada faria sentido se não existissem pessoas com a capacidade de nos fazer sorrir e de nos levar ao mundo que só a nós pertence. E as saudades, quando tudo isto acontece, nunca morrem, ficam para nos fazer lembrar que nada é mais importante que aqueles que são eternos e sempre nossos.

05 dezembro, 2010

Melhor

Deixa sempre o melhor para o fim, mas só e apenas se tiveres a certeza de que irás ter tempo de saborear tal como mereces. Em caso de dúvida, e porque a vida gosta imenso de pregar partidas, não deixes nada do que gostes para o final. Nunca se sabe quando as certezas são relativas.

01 dezembro, 2010

Noite

Naquela noite, ela sentia-se sozinha por dentro da multidão. Não se ouviam as vozes, a música no volume máximo só permitia perceber a leitura dos lábios e um pouco dos gritos que se berravam no ouvido. Mas ela nada percebia, sabendo perfeitamente quem queria ouvir. Até que a coragem conseguiu sair do cofre onde estava confinada, não a deixou pensar, nem reflectir, nem perceber. E quando deu por isso, ela estava ao lado dele. Ambos caminhavam para algum lugar, longe dos outros, longe dos medos, longe das incertezas e das barreiras. Estavam juntos e era assim que lhes sabia bem estar. Mas depressa as horas passaram, o dia chegou, outra noite voltou, outro caminho juntos percorreram. E ela voltou para casa, derramando lágrimas e dizendo adeus à última vez que o vira.

27 novembro, 2010

Temperatura

É na esperança de te ver que me reconcilio contigo. É na dúvida de te ver que me obrigo a voltar à realidade. Andamos tantas vezes a pensar no mesmo, para tentar chegar às mínimas conclusões, e só conseguimos chegar ao ponto onde toda a gente já chegou: não sabemos nem temos a certeza se queremos. O que nos vale é uma dualidade, mantemo-nos em contacto a quilómetros de distância. Se um dia me dessem a escolher entre ter e ser, preferia não possuir duas mãos que sentem o frio por dentro e calor por fora. São as frieiras de sentir e não perceber, de querer e afastar, de desejar e não pensar. As minhas mãos são como nós, pertencentes a dualidades que não fazem sentido, apenas têm que ser assim, sem saber muito bem porquê. Dizem que é a temperatura, mas entre nós nunca houve frebe, se bem que me lembro de uns tempos de hipertermia, outros de hipotermia, mas nunca chegamos a morrer. E eu não percebo.

22 novembro, 2010

Questões

E depois há aqueles dias em que estamos com um pé no certo e outro no errado, em que fomos divididos ao meio e não sabemos a que lugar queremos pertencer. Devería-me preocupar quando o meu cérebro pára em certas frases ou me leva para outro lugar ao qual nunca mais vou pertencer. Deveria até sentir-me estranha dentro do meu corpo quando o toque, que a minha mão sente, não é o toque que eu quis provocar. Tenho a percepção, em certas alturas do dia, especialmente nas horas em que as minhas pernas adormecem a caminhar ou nas horas em que os meus olhos se perdem no ponto a fixar, de que estou fora desta caixa e que sou leve, quase invisível, como uma pena que esvoaça e nada tem. Nestas alturas, não me agarro às incertezas e volto à realidade, dizendo a mim mesma que não posso enlouquecer. Mas pergunto-me, tantas e tantas vezes, que coisa me faz andar aqui, por quem me levanto de manhã, por que razão me canso a viver. Não obtenho resposta. E continuo com o que estava a fazer, sem pensar que as perguntas vão voltar outra vez.

21 novembro, 2010

Passado

Às vezes, o passado conta histórias no presente e só nos apetece voltar ao estado da pura despreocupação, da inteira inconsciência e da nenhuma mágoa, que um dia foi o nosso, que durante um dia foi tudo para nós.

Prazeres

Maltratas os meus sentimentos
e deitas fora tudo o resto.
Só levas em conta teus prazeres
e continuas fingindo que não presto.

19 novembro, 2010

Falésia

Entreabes os lábios e fechas os olhos, falas em voz baixa sem que se te abra o coração, remas pelas encostas do maravilhoso e pensas que ainda estás no sítio errado. Passando por entre o vento, foges da vida que levaste, pedes pelos teus e não por ti, finges que sabes as verdades e ainda viras a face ao que faz parte dos teus planos. E no final da história, nada se aprendeu contigo. Queres fazer por vencer, mas só consegues chegar à frente para logo atrás chegares, quando não o cimo que realmente procuras. Abre os olhos ao dares função às tuas estruturas, tenta dizer em voz alta o que julgas ser o teu medo. E quando estiveres no topo da falésia, deixa-te cair e aproveita a queda.

16 novembro, 2010

Réplicas

Eram tantas as limpezas que o Sr. Manel tinha de fazer à sua junção de histórias que não sabia por onde começar. Foram muitos anos a querer esquecer o que a vida lhe dera, foram tantos os dias a querer a esperança de conseguir se arrumar, e os longos serões, que passava sentado no chão dos seus sonhos, acabavam por o acordar de tanto tédio acumulado nas paredes da sua caixa craniana. Até que um momento lhe sussurrou ao ouvido, disse-lhe que as memórias tinham aprendido a gostar de si mesmas, o que fez com que as ditas histórias se tivessem aglutinado e formado um livro. O Sr. Manel sorriu, tinha finalmente arrumado os seus pensamentos e as suas vontades, percebeu que as rugas que a sua cara ostentava eram nada mais do que as histórias, que eram suas, e a sua identidade, que era formada por elas. Então pensou nas Marias e nos Manéis, seus vizinhos na casa que o universo lhes deu, e rezou aos ceús e aos ventos de forma a  conduzirem réplicas daquele sorriso para outras bandas, tão necessitadas dele como um dia o Sr. Manel o foi.

15 novembro, 2010

Saudade

Ter saudade é ver com o coração e sofrer pelos olhos, querendo sair de casa quando uma tempestade lá fora acontece, é haver sol e sentir-se congelado. Não são pequenas saudades aquelas de que falo, são as impossíveis de apagar, indecifráveis aos outros e para nós difíceis de aguentar. Vive-se com elas, quando se corre para o metro ou se estuda para um exame, quando se acorda e se tenta adormecer, quando se repara nos outros e, mais ainda, quando falamos para dentro. São as saudades que travam connosco uma luta, a todos os minutos do dia e da noite, faça tranquilidade, faça inquietude.

14 novembro, 2010

Relações

Nas relações que se prezam, são as emoções mais fortes que marcam o lugar, por mais breves ou pequenas que possam ser. Todas as dúvidas e incertezas conseguem esmorecer para dar lugar aos sorrisos e confiança plena, desde que em nada se comparem com antigas memórias feitas de papel. E que não se iludem, são os sentimentos mais sinceros que sobrevivem às tempestades e brilham mesmo na escuridão das noites frias. Hoje em dia, até mesmo os genuínos se perdem no mapa e enfrentam desafios para se acharem e finalmente prosseguirem. Gostava que fosse mais simples, mais fácil de entender, com menos dor e angústia à mistura. No entanto, se não fosse assim, nunca saberia quais são os seres humanos que para mim são pessoas e que para o mundo fazem falta. E em tudo deposito amor, sem ele andavamos numa roda viva sem objectivos e sem metas, sem alma.

11 novembro, 2010

Vivacidade

Continuadamente, as calçadas da cidade se encheram de folhas secas e consumidas pelo ar poluído de que foram feitas. Estavam como mortas, tal como mortas estavam as folhas de jornal que enchiam a entrada da maioria dos prédios. E eram nas portarias, as antigas e as que já ninguém habitava nem queria saber, onde se podia observar,  de perto e em concreto, a vivacidade que a cidade outrora viva já não tinha. Esperava-se que o primeiro louco saísse de casa e gritasse que o mundo precisa de continuar a mover-se.

09 novembro, 2010

Vivência

Uma pena, branca e sedosa, confortavelmente pura, reaparece sem que os pesadelos se recusem a não deixar. Pelo tanto, ou tanto pelo menos, os factores superficiais, de aquecimento de batimentos cardíacos, não deixaram por sua única vez a ânsia de sentir a raiva de um dia ter sido assim. Nunca se pensa, de facto, quando o passado volta repentinamente a ser do nosso pertence, apenas se faz fila de espera para o vivenciar por esta, quem sabe, última, vez. Tiram-se as lascas e as farpas, remediam-se as feridas ainda não cicatrizadas e espera-se por tudo que seja agora mais feliz a vivência.

08 novembro, 2010

Lufada

De todas as vezes que sai à rua, Zetânia sente o vento a emergir por suas calças dentro. Não como ar gelado ou ardor incomodativo, mas como uma das poucas sensações que lhe permite libertar tensões, preocupações ou até mesmo conspirações. De todas as vez que saia à rua, não sente o azedume presente nas sarjetas ou o fétido calor a bocas de ar. Sente antes os primórdios do ser andante, que não pára até chegar a seu destino, sente, com a lufada de ar fresco e revitalizador, a esperança de conseguir sobreviver ao que todos desistem. Se de vez em quando pensa em acatar o desejo do além querer, ao sentir o vento nas pernas, essa é uma das ideias que tem lugar directo no contentor do lixo sem remédio. E que remédio terá ela se não obrigar-se a renascer com o vento, já que a sua nascença foi a condenação à morte contínua, que cada dia a visita e a deixa um pouco mais escura, como a caixa de sapatos ao fundo do armário.

07 novembro, 2010

Corrida

Não existem programas definidos para combater o desfiladeiro de canções surdas, cansadas de letras solitárias, enfadadas de tombos e retombos. Não há estrelas que vedem as guilhotinas untadas de manteiga derretida, pensando quem nunca viu tal coisa. Lançam-se as asas ao mar, pega-se fogo aos sonhos. Que se levante o último dos desejos para que se possa dar o final da corrida. Hoje podia ter sido o momento do começo, se o começo não fosse apenas um mero falso continuar.

06 novembro, 2010

Primeiro

O primeiro dos dias, que vão correndo, passa por Dom Quim sem que Dona Nêta se queira aperceber. Ele que tanto confuso traz para sua casa e ela que muito de si fez um escuro tormento. Vivem os dois na mesma ruela, esperam os dois pelo mesmo dia último, sem que tenham dó um do outro, sem que tentem olhar para o bom que a vida ainda se digna lhes oferecer: o ser que ao lado de casa vive. Esperam os restantes vizinhos que luz se faça nas inquietas almas daqueles dois, pois coisas que os perturba são coisas que os seduz e coisas que deveriam querer era reparar no que nunca querem ver.