14 novembro, 2010

Relações

Nas relações que se prezam, são as emoções mais fortes que marcam o lugar, por mais breves ou pequenas que possam ser. Todas as dúvidas e incertezas conseguem esmorecer para dar lugar aos sorrisos e confiança plena, desde que em nada se comparem com antigas memórias feitas de papel. E que não se iludem, são os sentimentos mais sinceros que sobrevivem às tempestades e brilham mesmo na escuridão das noites frias. Hoje em dia, até mesmo os genuínos se perdem no mapa e enfrentam desafios para se acharem e finalmente prosseguirem. Gostava que fosse mais simples, mais fácil de entender, com menos dor e angústia à mistura. No entanto, se não fosse assim, nunca saberia quais são os seres humanos que para mim são pessoas e que para o mundo fazem falta. E em tudo deposito amor, sem ele andavamos numa roda viva sem objectivos e sem metas, sem alma.

11 novembro, 2010

Vivacidade

Continuadamente, as calçadas da cidade se encheram de folhas secas e consumidas pelo ar poluído de que foram feitas. Estavam como mortas, tal como mortas estavam as folhas de jornal que enchiam a entrada da maioria dos prédios. E eram nas portarias, as antigas e as que já ninguém habitava nem queria saber, onde se podia observar,  de perto e em concreto, a vivacidade que a cidade outrora viva já não tinha. Esperava-se que o primeiro louco saísse de casa e gritasse que o mundo precisa de continuar a mover-se.

09 novembro, 2010

Vivência

Uma pena, branca e sedosa, confortavelmente pura, reaparece sem que os pesadelos se recusem a não deixar. Pelo tanto, ou tanto pelo menos, os factores superficiais, de aquecimento de batimentos cardíacos, não deixaram por sua única vez a ânsia de sentir a raiva de um dia ter sido assim. Nunca se pensa, de facto, quando o passado volta repentinamente a ser do nosso pertence, apenas se faz fila de espera para o vivenciar por esta, quem sabe, última, vez. Tiram-se as lascas e as farpas, remediam-se as feridas ainda não cicatrizadas e espera-se por tudo que seja agora mais feliz a vivência.

08 novembro, 2010

Lufada

De todas as vezes que sai à rua, Zetânia sente o vento a emergir por suas calças dentro. Não como ar gelado ou ardor incomodativo, mas como uma das poucas sensações que lhe permite libertar tensões, preocupações ou até mesmo conspirações. De todas as vez que saia à rua, não sente o azedume presente nas sarjetas ou o fétido calor a bocas de ar. Sente antes os primórdios do ser andante, que não pára até chegar a seu destino, sente, com a lufada de ar fresco e revitalizador, a esperança de conseguir sobreviver ao que todos desistem. Se de vez em quando pensa em acatar o desejo do além querer, ao sentir o vento nas pernas, essa é uma das ideias que tem lugar directo no contentor do lixo sem remédio. E que remédio terá ela se não obrigar-se a renascer com o vento, já que a sua nascença foi a condenação à morte contínua, que cada dia a visita e a deixa um pouco mais escura, como a caixa de sapatos ao fundo do armário.

07 novembro, 2010

Corrida

Não existem programas definidos para combater o desfiladeiro de canções surdas, cansadas de letras solitárias, enfadadas de tombos e retombos. Não há estrelas que vedem as guilhotinas untadas de manteiga derretida, pensando quem nunca viu tal coisa. Lançam-se as asas ao mar, pega-se fogo aos sonhos. Que se levante o último dos desejos para que se possa dar o final da corrida. Hoje podia ter sido o momento do começo, se o começo não fosse apenas um mero falso continuar.

06 novembro, 2010

Primeiro

O primeiro dos dias, que vão correndo, passa por Dom Quim sem que Dona Nêta se queira aperceber. Ele que tanto confuso traz para sua casa e ela que muito de si fez um escuro tormento. Vivem os dois na mesma ruela, esperam os dois pelo mesmo dia último, sem que tenham dó um do outro, sem que tentem olhar para o bom que a vida ainda se digna lhes oferecer: o ser que ao lado de casa vive. Esperam os restantes vizinhos que luz se faça nas inquietas almas daqueles dois, pois coisas que os perturba são coisas que os seduz e coisas que deveriam querer era reparar no que nunca querem ver.